"Análise da Imprensa Feminina a partir de Leslie Rabine " e anexos
As revistas de moda tornaram-se, desde o final da década de 60, o veículo improvável de conflitos sociais e políticos não resolvidos afinal, ao mesmo tempo que estas revistas faziam propagandas e incentivavam o consumo, elas surpreendiam quem não era leitor, afinal elas serviram e servem crescentemente de fórum para o feminismo norte americano e também para alguns movimentos civis e ecológicos. Leslie Rabine, coloca em seu texto, que as revistas de moda mesmo sendo conhecidas por tratarem de coisas fúteis e de certo modo “sem valor”’, desde o final da década de sessenta , têm nos conduzido a alguns conflitos mal resolvidos . Uma análise destas revistas mostrara também uma certa “duplicidade” no que diz respeito a capacidade de oprimir as mulheres, que a moda tem tornando seu corpo um objeto vendável e consumivel e aprisionando seus desejos ao consumismo, podendo ser considerada o meio mais expandido de auto-expressão da mulher.
O Eu feminino expressado pela moda é também uma das principais forças para produzi-lo. As mulheres sempre belas, exuberantes que estão nas revistas ou editoriais de moda representam um sistema simbólico de signos de opressão e liberação no interior das imagens do corpo feminino.
“A moda comunica mensagens simbólicas que vão além da imagem e da condição de valor de uso. Ela faz parte do estudo da semiótica pelos signos. É a concretização de uma idéia pautada pelas crenças e valores de uma sociedade em determinada época. É efêmera. É fútil. É cultura. É aprisionante e é libertadora ao mesmo tempo. É capacidade de expressão. “
Uma contradição Vem acompanhando a história da moda desde o começo do século XX e essa questão é exatamente a da opressão e liberação do corpo da mulher, talvez seja uma das contradições mais fortes que acompanham a história da moda.Ora espartilho, ora modelo império, ora shape ampulheta, ora shape H. Sempre se aprisionando e se libertando através da moda que está sendo ditada no momento.
Mas quando ela está falando de contradição no texto, Lelie Rabine, se refere às décadas de 60/70. Quando surgia o que chamamos de “ liberdade”, pelo menos em certos parâmetros. E quando as revistas da época começaram a realmente lançar mudanças específicas na representação da moda.
Pesquisando a respeito de liberdade e opressão achei um texto de José Cerqueira Dantas. Que possivelmente faz uma interface com o tema. Ele não está de todo certo,talvez até um pouco machista em certo ponto, mas achei suas palavras de certo modo verdadeiras quando ele coloca que a moda muitas vezes aprisiona a mulher que acaba vivendo ou pelo menos acabava vivendo em uma triste condição feminina, vivendo para exterioridade. Antes proibida de se mostrar, hoje quase que obrigada a se mostrar e acabando se colocando em uma situação de objeto. As roupas da moda hoje muitas vezes são impostas à mulher que acabam sendo dominadas,oprimidas e escravizadas.
Bom , anexado ao trabalho existe uma reportagem que pode ser relevante para este tema. Pode ter um lado um pouco pejorativo, mas um outro lado me pareceu interessante a respeito dessa contradição tão duradoura.
Além de observar contradição que acompanha a mulher e a moda desde do início do século, Leslie Rabine notou três mudanças específicas que aconteceram sobre a representação da moda a partir do final da década de 1960 e do início da de 1970, além destas, pautei mais uma, que no presente talvez seja uma das mais importantes:
A primeira mudança pode ser chamada de “ diversificação de estilo” e nos fala a respeito da revista vogue que lançou em uma de suas páginas um estilo “ Jakqueline Kennedy” de conjuntos de vestidos retos, estruturados, trapézios, formais e elegantes. Ao longo da década esse estilo sofreu mudanças que revelavam mais o corpo sendo mais sugestivos de costumes e fantasias exóticas e audaciosas. A segunda mudança poderia ser chamada de antropológica. E foi caracterizada por uma ausência de indicações de como as leitoras vivem, só haviam anúncios de roupas de banhos que mostravam férias de verão, mas sempre indiretamente e vagamente. Dicas para jantares, Assuntos temporais apareciam apenas como notas. Na década de 70 pela primeira vez a revista falava de assuntos políticos, econômicos. Além disso, sua sessão de arte e letras, livros e filmes se expandiu , a revista passou a ter resenhas sobre o assunto.
A terceira mudança, pode ser chamada de “reflexão” e reforça essa contradição e faz uma auto reflexão da parte de moda e de suas leitoras. As revistas vogue passaram a refletir sobre a leitora, sobre o que ela é, o que ela faz, o que ela pensa , a convidando a refletir mais sobre sua relação com a moda . A quarta mudança, acrescentada a este trabalho, pode ser chamada de tecnológica, afinal a imprensa feminina, faz um papel atualmente, que divulga a imagem feminina de forma diferente, ressaltando uma artificialidade que afeta profundamente as leitoras. As imagens fotográficas da moda são quase todas trabalhadas por softwares Gráficos, mostrando corpos plastificados, artificializados. Isso implica em uma cultura de desejo por corpos moldados e transformados, gerand uma supervalorização da aparência.
As revistas vendem atualmente uma ”mulher” artificializada que parece congelada no tempo. Atualmente as mulheres não querem envelhecer e se transformar, justamente por que isso afeta na sua aparência e atualmente aparência é tudo, sendo assim a mulher não quer sofrer por conseqüência discriminação e pressão da sociedade em que vive.
Segundo a autora, a moda faz o corpo feminino se tornar um conjunto de significantes articulados a dois sistemas diferentes de significados. Leslie dá dois exemplos interessantes uma dentro e uma fora do universo da revista vogue. Em fotografias da revista vogue é possível ver mulheres usando lingerie nas ruas como sinal de liberdade, isso passava uma mensagem de confiança :“ A mulher hoje em dia é mais confiante... “ Não precisam ser orientadas” .. Isso você usa nesta ocasião”.
A vogue categorizava uma maneira nova de se vestir sem limites, com liberdade, sendo mais confiante e protestando de certo modo contra a “opressão” e “ ditadura” da moda que impõe o que temos que usar. Na revista, nesse sistema de significado, essa atitude teve um efeito e um ponto de vista. Significou realmente a mulher querendo se libertar, ultrapassar limites... Porém no outro exemplo a autora mostra que na vida real por mudarmos os significantes e os sistemas que seriam o sistema “revista” e o sistema “vida real”, a roupa , o modo de se vestir da mulher quis dizer outra coisa, pelo menos pelo júri.
A Autora conta o caso de uma mulher em 1989 que violou esses limites nas ruas, no mundo real, e foi interpretada de maneira diferente. A leitura masculina que ela foi sujeita foi única e bem diferente da do caso “vogue”. Ela foi raptada e estuprada e quando o estuprador foi julgado ele foi absolvido por um júri masculino que deu autoridade para o estuprador ter feito o que fez e disse que a mulher com as roupas que estava queria provocá-lo e que a única leitura que poderia ter sido feita era a do estuprador.
Realmente ao dar esses exemplos a autora mostra como o corpo feminino e suas roupas podem cair em uma contradição terrível e se tornar esse conjunto de significantes articulados a dois sistemas diferentes. A pós década de 70, novos elementos das revistas de moda passaram a contribuir para evocar o desejo da leitora por uma identidade. Os elementos são o aumento da auto-reflexão, uma aparência mais espalhafatosa e sexy e ainda conseguir ser a voz dos movimentos sociais progressistas, evocando assim o desejo da leitora por uma identidade.
A história da moda com certeza foi sempre acompanhada por essa contradição um tanto "sofrível" que é justamente a questão da " opressão x liberação " do corpo feminino, já mencionada e a mulher vem sempre se aprisionando e se libertando através da moda que está sendo 'ditada' no momento: obedecendo padrões novos e desobedecendo padrões considerados 'antiquados', se libertando do machismo e se aprisionando no padrão vigente de beleza e mesmo nos tempos atuais, podemos dizer que essa contradição permanece de forma diferente.. A mulher se apresenta como independente, emancipada, feminista, quando na verdade se rende aos aprisionamentos da beleza, do luxo, do consumo e do padrão vigente.
A Imprensa sempre influenciou e influenciará as pessoas... ela faz um papel dúbio e o seu enfoque sempre será o consumo, infelizmente as informações que nos são passadas sempre sofrem manipulação e modificação para que ela chegue aos nossos ouvidos da forma certa. A imprensa feminina de maneira especial, consegue ser mais manipuladora e convincente, já que trabalha muito com a auto-imagem da mulher e Como as mulheres vivem em uma constante contradição e por que não dizer uma “confusão – mental” a respeito da sua existência e de seu lugar na sociedade, ela acaba por se tornar um alvo de fácil acesso...
Anexos de reportagens e imagens sobre o tema
Fotonovela, moda, beleza e trabalho
Acompanhando suas transformações, a Abril
fala cada vez melhor com as mulheres.
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MODA, CORTE E COSTURA Nascida em julho de 1959, Manequim é a primeira revista de moda da Abril. No começo, trazia fotos e modelos da Europa para as leitoras fazerem aqui (até casaco de pele saiu na capa da revista!). Hoje, o Grupo Manequim é responsável pela publicação de sete títulos regulares - entre eles Faça e Venda e Ponto Cruz - e sete especiais. |
Editora Abril detectou e traduziu em revistas as principais transformações vividas pela mulher no Brasil nas últimas cinco décadas. O fato de que Capricho - o primeiro título feminino lançado pela editora, em 1952 - oferecesse fotonovelas para uma leitora que só podia viver seus desejos na fantasia, e de que o mais novo sucesso da Abril nesse setor seja Viva Mais!, que chegou ao mundo inexplorado da leitora de baixa renda exibindo o slogan "para a mulher que quer vencer", revela a extensão dessas mudanças. Índices espetaculares de crescimento demonstram que a Abril fala cada vez melhor com as mulheres. A vendagem passou de 12 milhões de exemplares em 1992 para 24 milhões em 1996, e para 76 milhões em 2000, enquanto o número de títulos pulou de oito para 18, nos últimos cinco anos.
Capricho publicava inicialmente fotonovelas italianas. As regras de edição eram simples: tirar as cenas de sexo, cortar assassinatos, evitar tudo que ofendesse a moral conservadora da época. As vendas cresceram quando a revista começou a oferecer histórias inteiras, e não mais em capítulos, e quando trocou o formato de gibi pelo tamanho grande. Tinha chegado à dose que a leitora queria.
Claudia, a revista que a Abril lançou em 1961 com o nome que Victor e Sylvana Civita queriam dar a uma filha, focalizava a mulher no território da casa. "A leitora-padrão que a gente tinha em mente naquele tempo, até o seu Victor brincava muito, era a dona Mariazinha de Botucatu, uma senhora interessada em casa, marido e filhos", lembra Thomaz Souto Corrêa, vice-presidente da Abril, ex-redator-chefe e, mais tarde, diretor da revista. O mundo doméstico ganhara um brilho novo no momento em que chegavam ao mercado geladeiras, televisores, sabões que lavavam mais branco e chocolates solúveis. Em 1965, uma carta enviada à redação por uma obscura psicóloga de Niterói chamada Carmen da Silva dava uma notícia inquietante sobre as jovens donas-de-casa: elas estavam explodindo de angústia e frustração. Carmen queria falar sobre isso e lançou a seção "A Arte de Ser Mulher", que tornou Claudia um dos espaços mais arejados do feminismo, ao denunciar a rede ora ostensiva ora invisível da submissão. Para manter sua liderança no setor, Claudia teria de fazer sucessivas adaptações. "Era a revista de uma mulher casada e santa, e nos anos 90 esse não era mais o sonho de ninguém", diz a diretora de redação, Célia Pardi.
Outro salto na mentalidade feminina foi marcado pelo lançamento de Nova, edição brasileira da americana Cosmopolitan, em 1973. Como insistia a primeira diretora de redação, Fátima Ali, a um mercado publicitário desconfiado, havia uma mulher interessada num aprimoramento pessoal. Foi preciso também mostrar ao público que ser sedutora e ter carreira não é a mesma coisa que querer seduzir o chefe. "Desde o século XIX, a revista feminina só enxergava a mulher pelo mundo à sua volta: a casa, o marido, os filhos. A partir de Cosmopolitan, passou a se dirigir à pessoa da leitora", lembra Fátima, hoje diretora da Fundação Victor Civita. Adolescentes com direito a projetos de vida real e até a sexo mostraram-se um público promissor e ganharam em 1981 uma Capricho renovada, depois que as telenovelas corroeram o prestígio das revistas de fotonovelas. Nos anos 80 e 90, assuntos que conviviam nas mesmas revistas repartiram-se, dando origem a novos títulos, que exploraram os interesses e o crescente poder de consumo da mulher de classe média. As leitoras exigiam muito mais informação e estilo, como sinalizou a chegada de Elle.
As revistas femininas da Abril inauguraram muitas técnicas hoje consideradas indispensáveis à qualidade jornalística. Boa parte delas nos anos 60, em Claudia. Surgiu ali, por exemplo, a produção de reportagens de moda que substituíram a então inescapável foto estrangeira, publicada para inspirar uma leitora que mandava fazer suas roupas na costureira. Sob a direção do jornalista Luís Carta, contratado em 1959 para cuidar da qualidade editorial das publicações da Abril, profissionais como o fotógrafo Otto Stupakoff e o diretor de arte Attílio Baschera mostraram que o resultado podia ser informativo e de boa qualidade. A primeira cozinha experimental de alto padrão da imprensa brasileira foi criada por Claudia em 1963. Testava produtos alimentícios, eletrodomésticos e receitas. A produtora Olga Krell, arquiteta convertida ao jornalismo, foi estagiar nas revistas americanas Good House Keeping, McCalls e Better Homes & Gardens . "Victor Civita acreditava que a melhor maneira de aprender é ver alguém que sabe fazer", diz Olga. Mais tarde ela dirigiu o Estúdio Abril, onde se criaram técnicas de fotografar culinária, decoração e beleza, entre outras especialidades. "No começo a gente pegava boas revistas estrangeiras, olhava as angulações, a iluminação, as tendências", lembra Olga. "Visitávamos feiras internacionais de móveis e de artesanato em busca do que ia funcionar no Brasil."
Nas últimas décadas, as femininas contribuíram para sofisticar as técnicas de edição ao explorar melhor do que nunca a associação de texto e imagem que diferencia a revista, e ao aumentar a clareza e a legibilidade com atenção ao detalhe e ao conjunto. Além disso, começaram a observar mais sistematicamente a percepção da leitora, uma prática aperfeiçoada pelas atuais técnicas de pesquisa.
Em 1999, Viva Mais!, um projeto destinado a criar uma revista popular e de baixo custo reutilizando o material produzido por outras revistas da Abril, chegou a brasileiras que nunca tinham lido revistas e alcançou picos de venda de mais de 600 mil exemplares semanais. Atraída pelo preço, essa leitora estreante começou a freqüentar as bancas, e a redação passou a trabalhar cada vez mais focada nela. "É uma mulher que quer levantar a cabeça acima da linha da pobreza e do anonimato", diz Ricardo Setti, diretor editorial das Femininas. "Ela pode ser excluída do ponto de vista econômico, mas não da informação. É articulada e aproveita todas as oportunidades de se manifestar", descreve Claudia Giudice, uma das diretoras de redação. Não é por acaso que sua primeira oportunidade de tornar-se leitora foi proporcionada pela Abril.
ARTIGOS DE MODA / LIBERDADE
Há lembranças da infância que se eternizam, como que coladas na memória recente. Um filme nítido e vivaz. Uma destas recordações está ligada a um Natal da minha infância: íamos receber pessoas da família, e minha mãe, mulher bonita e vaidosa, arrumou-se toda, com seus longos cabelos petrificados pelo "laquet" e as maçãs do rosto cintilando o exuberante pigmento do "rouge". Estávamos à sala, esperando o primeiro convidado, quando entra dna. Mirtes, no vigor de seus 28-29 anos, emoldurada por um belo vestido vermelho, que mostrava-lhe as pernas (embora encobrindo os joelhos), delineando a cintura e os ombros. Era como se Ava Gardner tivesse saído das telas do Cine Rex, para cear conosco naquele Natal. Pouco durou o espetáculo, pois meu pai, silencioso e rápido, surgiu com uma longa tesoura, e empunhando a bainha do vestido começou a cortá-lo, de baixo a cima. Minha mãe soluçava e dizia: "por favor, Dantas, não faça isso !", enquanto ele repetia: "falta de respeito, que falta de respeito !" Fui, assim, apresentado, ainda na infância a uma das manifestações mais eloquentes daquilo que muito depois veio a se chamar "ditadura da moda". No caso mais justo seria chamar "moda da ditadura”. Passaram-se os anos, e surgiram os "jeans", o rock, a pílula... e a "liberdade" feminina ! Com ela, o direito da mulher vestir-se como bem entendesse. E nada permite acompanhar mais a evolução desta relação liberdade/mulher/moda, que os jeans: no início era uma vestimenta que se apertava na cintura, através de um cinto. Depois passou a se apoiar nos quadris, exercendo uma pressão circunferencial na região lombar, sustentando-se por um mecanismo de suspensão. Finalmente, foi atingido o estágio atual, no qual os jeans passaram a sustentar-se por aderência, num processo de colagem ao corpo: a mulher não vira, ou mexe o abdome dentro das calças, o máximo que pode fazer é mexê-lo junto com as calças. Depois que jeans e outros tecidos "elásticos" foram desenvolvidos pela indústria da moda atingiu-se a fase atual, da "vestimenta-tatuagem", na qual os relevos corporais que não estão à mostra aparecem mais exuberantes que no natural, sobretudo quando é feito uso de materiais de silicone que acentuam artificialmente curvas e volumes irrelevantes. Com isso o novo vestir feminino passa a existir "em-si" e "para-si". A mulher passa a viver para seus jeans e acessórios, assumindo um comportamento totalmente voltado para atitudes de exterioridade. Um paradoxo: a vestimenta que surgiu sob o signo da informalidade, da liberdade, veio justamente impor uma nova "etiqueta", controlando e ditando gestos e movimentos. Na história da humanidade a roupa influiu muito sobre o comportamento e a moralidade, e "evoluimos" para uma condição feminina que a obriga a viver para o exterior, reduzindo o exercício da interioridade. Para a mulher atual a vestimenta perdeu sua característica de proteção e intimidade corporal: agora o corpo tornou-se algo totalmente exteriorizado. "Eu sou o que e como eu visto", pensa a mulher, mergulhando num processo de "autoconsciência epidérmica", na expressão de Humberto Eco. O sofrimento da contradição se instala quando as formas corporais começam, pelos efeitos da idade e dos hábitos, a não obedecer às fronteiras impostas pela armadura, e mesmo com a moça da loja dizendo "aperte, aperte, depois se ajustam", um espetáculo particularmente dramático de conflito conteúdo/continente começa a se delinear. Isso sem contar que o pensamento tem horror dos tecidos colantes! Triste condição feminina - sempre obrigada a viver para a exterioridade: no passado proibida de mostrar-se, no presente obrigada a fazê-lo, impelindo-a a descuidar do exercício do pensar! A mulher atual está, assim, mais escravizada pela moda do que o foi minha mãe pelo meu pai. A mulher foi escravizada pela moda não apenas porque lhe foi imposto ser atraente, desejável, excitante. Tornada assim objeto, ela foi escravizada, acima de tudo, porque a moda à qual se submete obriga-a a viver sempre para o exterior, para o olho do outro. Temos, assim, que pensar o quanto uma moça precisa hoje ser dotada e guerreira para conseguir, submetida à imposição de vestir as roupas de moda, ainda assim ler, pensar, refletir; alimentando sua interioridade. Descobre-se então que, símbolo aparente de liberação e de igualdade com os homens, as roupas da moda hoje imposta à mulher são uma outra armadilha da dominação, fazendo-as tão escravas quanto o foi minha mãe. Será um dia possível, à mulher, vida fora da esfera do domínio? José Cerqueira Dantas. 03.01.2008 |
A percepção feminina dos anúncios de sapatos
Observando todo os dados mencionados, bem como as análises realizadas, optou-se pela busca da opinião da consumidora em relação ao papel feminino anunciado nas campanhas de calçado, bem como a visão particular da mulher na contemporaneidade. A fim de estabelecer esta conexão entre análises teóricas e recepção dos anúncios, foram entrevistados três grupos de mulheres. Cada um dos grupos composto por mulheres da região do Vale do Sinos, ou seja, pessoas que podem ser interpeladas pela mídia local, recebendo anúncios das empresas do Vale do Sinos.
A opção por esta metodologia ocorreu porque os grupos de foco geram discussão, revelando tanto os significados presumidos pelas pessoas no tópico de discussão, como a maneira pela qual elas negociam esses significados. Os grupos de foco geram diversidade e diferença, dentro ou entre os grupos, e, por isso, revelam de maneira mais evidente as opiniões dos indivíduos pesquisados.
O universo que fez parte dos grupos focais, foi composto de mulheres na faixa etária dos 18 aos 50 anos, economicamente ativa, ou não; consumidora de sapatos, divididas em categorias como: a) funcionárias; b) professoras; c) alunas.
Nos anúncios selecionados para apresentar aos grupos focais, é possível verificar a idéia de aprisionamento, enunciada por Vestergaard/Schroder(2000), onde é utilizada a metáfora da "camisa-de-força da feminilidade", para retratar a forte tendência que a maioria das mulheres seguem em relação aos padrões estéticos, comportamentais reiterados, apresentados pela mídia.
Para o 1º grupo, a mulher vista nos anúncios apresentados é requintada, tem muitas jóias. As entrevistadas salientam um certo ar de vulgaridade expresso nesses anúncios, apontando para a distância existente entre a mulher anunciada e a mulher real. Além disso, elas afirmam que a imagem retratada na mídia não é a imagem que tenham de si, ou seja, fica aquém de suas expectativas, pois há a presença do estereotipo da mulher fatal.
Outro aspecto interessante da publicidade e que foi discutido com o grupo focal é o padrão estético feminino atual. Como afirma Del Priore: "É o culto ao corpo na religião do indivíduo em que cada um é simultaneamente adorador e adorado.(...)Quem não o modela, está fora, é excluído" ( 2000, p. 92). Sabe-se que desde o início da Pós-Modernidade, o corpo assumiu um lugar de destaque, ou seja, deixou de ser simplesmente invólucro da alma, dos sentimentos. O corpo torna-se um instrumento precioso para a auto-afirmação nos grupos sociais, podendo ser mencionado, inclusive, a existência de um imaginário sobre as formas que devam assumir.
As mulheres entrevistadas percebem essa exigência e reagem a este modelo, dizendo que o corpo esguio sugerido pela mídia está longe do corpo feminino brasileiro, assemelhando-se muito mais ao corpo da mulher européia. E, lembram a exigência de um corpo perfeito, sem marcas, sem rugas, sem gorduras. Além disso, estas mulheres têm consciência da mestiçagem que deu origem ao corpo feminino brasileiro, bem como a ausência de sua representatividade nos anúncios publicitários.
Outro aspecto muito interessante é o fato de os modelos das campanhas lembrarem um determinado grupo social, a classe mais elevada, sugerindo que os calçados são produzidos para mulheres de grande poder aquisitivo, quando, na verdade, sabe-se que tais produtos são vendidos em diferentes lojas, de diferentes padrões sociais.
E esta percepção, relatada na fala anterior pode ser associada ao acesso ao poder simbólico, que têm aquelas pessoas que fazem parte de determinadas classes social, a dominante. Ou seja, a cultura dominante, através do poder simbólico, legitima as diferenças e as semelhanças (Bourdieu, 1998).
Então, o que muitas vezes parece ser um simples anúncio de calçados, é também um instrumento para apontar, reforçar, instituir características físicas, sociais, de classe, de gênero, que são perceptíveis, sim, pelos públicos receptores. Também são, na maioria das vezes, admitidos, pois a mídia impressa passa, nos dias de hoje, a exercer a função de "manual de boas maneiras e mobilidade na sociedade".
Percebe-se, então, que realmente há a instauração de padrões estéticos, comportamentais, considerando a aparência do indivíduo, mesmo que este tenha recursos financeiros, isto não é suficiente, ele realmente necessita mostrá-lo. É um jogo de aparências que vale muito mais que a realidade.
Em relação à eficiência das campanhas publicitárias de calçados femininos, percebeu-se, pelas respostas, que este grupo está insatisfeito e prefere fazer a compra de calçados considerando a vitrine das lojas. Elas apontam que a eficiência dos anúncios publicitários está restrita à fixação da marca.
È surpreendente perceber que atualmente a publicidade, pelo menos para este grupo de mulheres, não está alcançando seu objetivo principal que é persuadir o indivíduo a comprar o produto. As mulheres alegaram já terem procurado várias vezes sapatos em lojas, depois de terem visto em anúncios e não tê-los encontrado. Ou seja, o que ocorre é um grande desencontro entre os produtos anunciados e os que realmente existem nas lojas, o que faz com que os consumidores desistam de considerar a publicidade como veículo confiável.
As mulheres ainda pensam que é mais interessante ir a uma loja de sapatos e verificar o que existe para, finalmente, efetivarem a compra. Apontou-se nesta discussão algo de positivo que é a memorização da marca, através da sua constante aparição. Ressaltando que, muitas vezes, a compra é feita por causa da marca que já foi sedimentada na memória do indivíduo.
Segundo as entrevistadas, as campanhas publicitárias deveriam ser repensadas, pois é a mulher, na maior parte dos lares brasileiros, que realiza as compras, e não só isso, mas é a mulher que está tendo a tarefa de sustentar o lar, pois já muito grande o número de mulheres que recebem mais que seus companheiros. Além disso, há outro grupo de mulheres economicamente independentes que espera uma publicidade que as veja como um grande público disposto a consumir.
Essas mulheres entrevistadas têm consciência de seu poder de compra, e estão esperando por campanhas publicitárias que tratem-nas com respeito, que levem em consideração que são mulheres que estão comprando para a casa, mas para si também. O homem, como mencionado por uma das entrevistadas, recebe a maior parte das campanhas, mas, efetivamente, não é ele que realiza as compras dos produtos anunciados pelas campanhas.
As características femininas mais mencionadas pelas entrevistadas foram: independência, batalhadora, determinação. Ou seja, a mulher tem consciência de como é. E quer ver refletidas nas campanhas publicitárias tais características, a fim de que sintam motivação para comprar o produto anunciado.
Considerações finais
Aparentemente, a publicidade ainda exerce forte influência sobre os públicos consumidores, entretanto este público está composto por categorias diferentes, ou seja, o poder de compra passou da exclusividade das mãos masculinas para um grande número de mãos femininas. E, diante de tais mudanças, faz-se necessária que as campanhas modifiquem-se, pois uma constante na fala das mulheres é que os anúncios parecem ser realizados especificamente para homens.
São anúncios de cremes com mulheres exacerbando sensualidade, seus corpos quase nus, e tais corpos apontam para mulheres fatais, que tem formas perfeitas, corpos construídos para a sedução, para a satisfação estética de que os vê. Um corpo que decididamente não retrata o corpo da mulher "comum". Sabe-se, inclusive, do relato de fotógrafos sobre o uso de ferramentas como o "photoshop" para corrigir certas imperfeições dos corpos das modelos. O que distancia cada vez mais as mulheres reais das mulheres presentes em anúncios publicitários.
E o produto que passou a ser mais consumido nas campanhas é o corpo feminino, situação discutida por Baudrillard (1970), o qual afirmava ser o corpo o mais belo objeto de consumo. Entretanto, é um consumo que está sendo questionado, considerando as respostas dadas à pesquisa. Ou seja, a mulher tem consciência de que o corpo está sendo "vendido", e muitas delas mostraram que tal formato de publicidade já não funciona mais de maneira tão eficiente.
A exigência de uma mulher dentro do padrão estético atualmente veiculado pela mídia, é inaceitável, pois as mulheres brasileiras sofrem a influência de várias raças, constituindo-se em uma forte mestiçagem, o que construiu um corpo que de longe se aproxima dos padrões estéticos tão valorizados nas campanhas. Ou seja, mulheres altas, com pernas longas e esguias, extremamente magras, semelhantes a bonecas do tipo Barbie.
Realmente, a necessidade de mudança na construção das peças publicitárias é urgente, pois o público feminino sente falta de se ver bem representado nas campanhas atuais. A maioria das peças utilizam estereotipos, como o da mulher fatal, ou da dona-de-casa, os quais, na maior parte das vezes deixa grande parcela das mulheres insatisfeita. Então, é preciso que tal mudança ocorra de forma imediata, pois as mulheres estão cobrando tais mudanças.
A população feminina é a que mais tem recebido, ao longo da história da publicidade, esses conceitos. E o que Carvalho afirma pode ser visto através da preocupação feminina atual em buscar o modelo de perfeição que é passado através das campanhas publicitárias. A mulher necessita, obrigatoriamente, ser bela, ser inteligente, ser bem sucedida profissionalmente e financeiramente, ou seja, aparentar a perfeição desta época, que é vista através dessas características. E, como conseguir tal feito? As campanhas publicitárias mostram para essas mulheres que isso é possível, através do uso de certas roupas, sapatos, produtos para embelezar o corpo, os cabelos, material para ginástica, enfim, todos os recursos necessários para que a mulher comum se transforme em "mulher maravilhosa".
As campanhas de calçado, atualmente, têm apresentado em suas imagens muito mais os corpos dos modelos que os produtos a serem vendidos, os sapatos. Observou-se que, principalmente nas campanhas dos meses de verão, o corpo é o produto a ser vendido, e o sapato é um adereço para enfeitar o produto que realmente está à venda, a imagem da mulher atual.
Observou-se, também, que as campanhas de inverno também trouxeram o mesmo elemento orientador das campanhas da outra estação, ou sejam, o corpo feminino deveria estar em evidência, ser vendido como produto, e, além disso, certos conceitos também são apresentados como produtos a serem consumidos pelas compradoras da mercadoria ofertada.
POR : Denise Castilhos de Araújo
CONSELHOS DE REVISTAS FEMININAS DOS ANOS 50 E 60........
Não se deve irritar o homem com ciúmes e dúvidas . (Jornal das Moças, 1957);
Se desconfiar da infidelidade do marido, a esposa deve redobrar seu carinho e provas de afeto. (Revista Claudia, 1962);
A desordem em um banheiro desperta no marido a vontade de ir tomar banho fora de casa . (Jornal das Moças, 1945);
A mulher deve fazer o marido descansar nas horas vagas, nada de incomodá-lo com serviços domésticos . (Jornal das Moça, 1959);
A esposa deve vestir-se depois de casada com a mesma elegância de solteira, pois é preciso lembrar-se de que a caça já foi feita, mas é preciso mantê-la bem presa . (Jornal das Moças, 1955);
Se o seu marido fuma , não arrume briga pelo simples fato de cair cinzas no tapete. Tenha cinzeiros espalhados por toda casa. (Jornal das Moças, 1957);
A mulher deve estar ciente que dificilmente um homem pode perdoar uma mulher por não ter resistido às experiências pré-nupciais, mostrando que era perfeita e única, exatamente como ele a idealizara. (Revista Claudia, 1962);
Mesmo que um homem consiga divertir-se com sua namorada ou noiva , na verdade ele não irá gostar de ver que ela cedeu. (Revista Querida, 1954);
O noivado longo é um perigo. (Revista Querida, 1953);
É fundamental manter sempre a aparência impecável diante do marido. (Jornal da Moças, 1957);
E pra finalizar a "mais mais" de todas:
O LUGAR DE MULHER É NO LAR . O TRABALHO FORA DE CASA MASCULINIZA. (Revista Querida, 1955)
Sites consultados : http://www.maxima.xl.pt/1008/md/esp/600.shtml
www.comunidademoda.com.br
http://www.trash80s.com.br/cultura/cultura_113.php
http://www.clubedejornalistas.pt/uploads/jj35/jj35_24.pdf