1. Introdução :
A concepção de corpo na contemporaneidade foi transformada, assim como o seu papel na construção da subjetividade, necessita-se analisar como a beleza vem sendo idealizada atualmente e como as pessoas vem se deixando seduzir por estas novas concepções.
O Corpo começou a ser visto de forma diferente e redescoberto de uma maneira surpreendente como a modernidade nunca pensou que aconteceria. E em destaque está o corpo feminino: A mulher é sensualizada, e vista de uma forma erótica, sedutora e volta a ser vista de forma doce e submissa, em um tempo aonde se queria valorizar a emancipação da mulher, é curioso como ela se deixou manipular pela sedução, pelo consumo e pela mídia, e acabou se reduzindo apenas à estética e à vaidade acima de tudo.
Não que o homem não tenha se deixado dominar por isso também, mas a mulher infelizmente, ocupa um lugar de muito mais destaque do que o homem com sua vaidade e estetização do corpo.
O corpo agora virou mercadoria e a seu valor de uso foi modificado, enquanto a modernidade prezava a utilidade, a praticidade, a eficiência, a tecnologia e a técnica , a contemporaneidade privilegia e dá mais valor a completa estetização de tudo.
No presente trabalho, apresento evidências deste culto ao corpo e suas relações com algumas referências bibliográficas estudadas que exploram esse conteúdo de forma teórica. Além disso, tento mostrar aonde essa estetização do mundo (em geral) pode nos levar : um esvaziamento completo de um mundo que de certa forma “emburreceu” e se conduziu a outros caminhos.
Culto ao corpo : A marca da contemporaneidade
Na sociedade atual, a insatisfação com o corpo tem sido uma constante entre homens e mulheres que na maioria das vezes são jovens. Eles nunca estão satisfeitos com sua forma corporal e sempre tem um desejo de alcançar um objetivo muitas vezes vazio e efêmero.
Infelizmente, na maioria das vezes, as mulheres mais do que os homens, dão maior valor a sua própria beleza e juventude eterna. É triste pensar que atualmente muitas mulheres só se valorizam por ter uma “bundinha” durinha e um par de seios com silicone e ainda por cima recebam apoio dos homens que na maioria das vezes valorizam apenas isso nelas. As mulheres vivem a pressão de serem belas como condição de felicidade, de êxito e até sucesso nas conquistas amorosas, é realmente assustador.
Fico me perguntando se estas mudanças e aprimoramentos corporais que as mulheres vem realizando para ter o corpo de seus sonhos, não são mais uma forma de mostrar a “docilidade” do corpo feminino e sua submissão; seria triste ver a mulher recriando origens do machismo através destas interferências que criam novamente a diferença de gênero e espelham velhas desigualdades entre os sexos.
Às vezes penso que algumas mulheres só se preocupam com as aparências e se alienam e por vezes se colocam longe dos vários problemas sociais e culturais que nos cercam, percebendo como meio de vida apenas tal estética. Mas é claro que isso não vale para todas, pois existem aquelas que são no máximo um pouco vaidosas, mas não colocam a vaidade acima de tudo e é claro prezam uma participação social e preferem estar inseridas no mundo de forma total.
Afinado com este culto ao corpo vem o preconceito que mais uma vez atua na sociedade que não sabe conviver com a verdadeira diferença. Ao fazer esta pesquisa me surpreendi quando me depararei com a citação abaixo :
“Ora, sabemos que existem concursos que já estão solicitando o IMC (índice de massa corporal) de seus candidatos e que inúmeras empresas não contratam pessoas gordas - certamente a alegação é outra, mas o raciocínio segue pela seguinte linha - como a gordura é apenas uma questão de 'força de vontade', deixando-se de lado todos os outros aspectos envolvidos - da genética ao psíquico -, atribui-se ao sujeito a impossibilidade de agenciar seu próprio corpo. Ora, se você não é capaz de gerir sua própria vida com competência, como o fará em seu trabalho?.” (Joana Novaes)
Como o ser humano conseguiu regredir tanto?A modernidade fazendo planos de “racionalização” e de repente algo que ninguém esperava veio a acontecer : uma tamanha estetização do mundo. Uma modernidade querendo caminhar para a eficiência, tecnologia e inteligência que voltou para trás em uma contemporaneidade sem bases firmes, que não tem mais aonde se apoiar e agora deixa a estética dominar o campo do crescimento e do conhecimento.
E são estes os padrões de beleza da contemporaneidade: Seco, sarado e, definitivamente, magro! Nas palavras de Carla Reston (modelo de 21 anos que faleceu em dezembro de 2006 de anorexia):
"vovó eu prefiro morrer a ser gorda".
Mas esta fala não é única:
"eu sei que vou morrer, mas até lá eu vivo magra",
"quando me olho no espelho, não saio de casa",
E estes, são exemplos de discursos recolhidos ao longo de pesquisas em sites, revistas e teses universitárias.
Por curiosidade, comecei a perceber até no próprio vocabulário atual, gírias que são “apelativas” e “preconceituosas” que incentivam esse culto ao corpo doentio, como por exemplo: “sarado” e “malhado”: Já paramos para pensar no que estas palavras querem dizer? Não é à toa que o termo empregado é 'malhar' , de acordo com Dra. Joana Novaes - malha-se como se malha o ferro, marca-se o corpo numa busca que, muitas vezes, escapa dos limites do humano, ignora-se o biotipo brasileiro em busca de uma androginia que praticamente anula as características femininas. Também não é acidental que a gíria usada seja 'sarado' -, o que, em realidade quer dizer curado. Mas 'curado' de que? Curado de si mesmo pensamos ser a mensagem subjacente ou ainda, curado da grande fobia social - ser gordo numa cultura lipofóbica!
Da segunda metade do século XX pra cá , o consumo só andou aumentando, a lógica da moda cresceu muito e cada vez mais o corpo vem se tornando um bem de consumo precioso, um objeto cada vez mais valorizado e moldável , que hoje se tornou praticamente um tesouro: Todos querem reinventar seus corpos de acordo com o novo padrão, afinal o corpo muitas vezes é até um requisito para o sucesso pessoal e/ou profissional como descrito acima : aparência é tudo, O mundo vive uma estetização como nunca viveu antes e a crueldade e o preconceito vem junto disso como já especificado acima.
Em seu livro A sociedade do consumo, Baudrillard resumiu em poucas palavras a importância deste corpo para a sociedade atual :
“ Na panóplia do consumo , o mais belo, precioso e resplandecente de todos os objetos – ainda mais carregado de conotações que o automóvel que, no entanto resume a todos é o corpo.” (Baudrillard)
Enfim, foi isso que o corpo virou: o mais belo produto (objeto) a ser consumido, depois de uma época com tanto puritanismo e vedações, a contemporaneidade redescobriu o corpo sob o signo da libertação física e sexual. Aquele que pode proporcionar prazer, aquele que pode ser controlado da maneira que você quiser: o corpo virou capital, fetiche (feitiço), e como Baudrillard ainda coloca, o corpo virou mais que isso, se tornou um objeto de salvação. Ser bela para a mulher se tornou algo absoluto e religioso e a contemporaneidade é regida pela estetização constante.
E não é que Baudrillard tem toda razão: o corpo se tornou objeto último da obsessão narcisista, dos cuidados excessivos e de tratamentos cosméticos, muitas vezes, desnecessários. Nos dias de hoje, são estes os rituais de verdadeira adoração: os cultos religiosos dedicados ao “Corpo”, que o tornam “sacrossanto”. De desígnio divino ou de limitações anatômicas, a beleza passou a ser um 'ato de vontade', 'de esforço' e um 'denotativo do caráter'. Como aponta Baudrillard, a sociedade de consumo traz a mensagem de que 'só é feio quem quer', "moralizando o corpo feminino" nas palavras do próprio autor.
Sim, o corpo é considerado o mais belo objeto para ser utilizado na sedução do projeto de manipulação das pessoas, culminando ainda no gosto do sujeito pelo consumo exagerado e pela “artificialização” dos corpos destes sujeitos e com isso, sua conseqüente perda de identidade.
A mídia talvez seja a principal influência deste culto ao corpo que fica cada vez mais evidente. Ela muitas vezes dita padrões artificiais, cria uma beleza “digitalizada” e impossível, fazendo com que as pessoas se sintam mal com seu próprio corpo e muitas vezes, provoca distúrbios no campo da alimentação e da imagem corporal, pois ao mesmo tempo em que “exige” corpos perfeitos, estimula práticas alimentares não-saudáveis como os fast-foods, e ainda faz campanha contra a anorexia , mas não confecciona roupas com tamanhos maiores e continua exigindo a magreza esquelética das modelos... e pensar que estes são só alguns dos exemplos desta sociedade do caos!
As novelas e propagandas vêm estimulando a lógica do prazer imediato, do consumo e claro a lógica da moda: - se é passado... Não serve mais.
E como a maior parte da população assiste e absorve tudo que vê na televisão, acabam encarando este culto ao corpo como algo natural e benéfico, sem perceber que estão apenas caindo na sedução da mídia, e consequentemente na sedução do consumismo.
E falando em Mídia, é bom lembrar que a publicidade faz um grande papel neste mundo da sedução , do efêmero... A publicidade muitas vezes, estimula cada um a se tornar "diferente", mas este diferente, na verdade, é a representação de um indivíduo refletido em certo grupo, ou seja, o que realmente acontece é a estruturação, pela publicidade, de modelos que são reproduzidos pelos consumidores, à medida que adquirem os produtos anunciados. E segundo Baudrillard, a publicidade impõe modelos, na tentativa de intensificar as diferenças, Se:
O processo geral pode definir-se historicamente: a concentração monopolista industrial, ao abolir as diferenças reais entre os homens, ao tornar homogêneas as pessoas e os produtos, é que inaugura simultaneamente o reino da diferenciação.(Baudrillard)
Assim, a necessidade de o indivíduo se mostrar diferente está muito ligada ao principio do próprio indivíduo não se conformar com a realidade que está vivenciando. E, então, a publicidade executa um papel de mostrar aos consumidores a possibilidade de serem “diferentes”, a partir do uso de certos produtos anunciados por ela. Enganoso e estranho, mas verdadeiro e isso vem acontecendo cada vez mais na sociedade contemporânea.
Além disso, outros dois fatores muito importantes surgem no que diz respeito ao consumo: a necessidade de mostrar aos demais a possibilidade desse consumo e a presença do narcisismo, que faz com que o indivíduo se idolatre, através do consumo de certos produtos e conceitos também vendidos atualmente. Com o aumento da possibilidade de compra, o sujeito , na maior parte das vezes, se sente motivado a mostrar aos outros seu potencial de compra, mostrando aí, também o seu status. Afinal, vive-se uma época onde as pessoas sentem necessidade de manterem uma relação narcisista, enfatizando suas qualidades, aí entram os tais atributos físicos - que se não são naturais, podem ser construídos com a ajuda da modernização da medicina estética, dentre outros aparatos a serem comentados..
E com este caráter diferenciador, a publicidade vem apontando para este grande produto que está sendo consumido incessantemente: o corpo - o qual é mostrado, vendido, e não somente serve como o suporte do produto oferecido, mas é - o próprio produto. E, segundo Del Priore, a banalização da beleza fez com que a maioria da população feminina consumisse uma imagem que, para a maior parte da população brasileira, é um ideal difícil de ser alcançado ou até impossível.
No nosso país, mais ou menos 44% das mulheres são consideradas economicamente ativas, sendo assim, percebe-se aí uma grande público consumidor, que tem sua vaidade e narcisismo muito aguçados pelas campanhas publicitárias, através da "oferta" de corpos estonteantes e de soluções milagrosas para qualquer parte do corpo e da desenvoltura feminina que não estejam de acordo com a imagem padrão que está estabelecida no imaginário atual de grande parte da população.
Mas grande parte destas mulheres não são economicamente ativas, e mesmo sem poder acompanhar procedimentos tecnológicos e cosméticos mais caros, algumas tentam no mínimo se inspirar no que vêem na televisão e imitar ao máximo a moda ditada pela TV, o que não deixa de ser prova do poder de manipulação deste meio de comunicação que incentiva o culto a vaidade e a beleza. Ou então, se encalacrar em dívidas, afinal, no meio contemporâneo em que vivemos facilidades - como o dinheiro de plástico- é o que não faltam, e cada vez mais pode-se gastar o dinheiro que não tem e que não se sabe quando vai ter.. Parece que tudo conspira a favor do consumo depravado e da lógica da moda.
Além das já apontadas, existem mais e mais evidências que comprovam o fato de que o culto ao corpo virou uma febre que tende a aumentar cada vez mais. A venda de produtos dietéticos, inibidores de apetite e redutores de gordura, por exemplo, aumentaram cerca de 70% nos últimos 3 anos. Cada vez mais as mulheres recorrem a tratamentos cirúrgicos, como plásticas, lipoaspiração dentre outros que ultimamente vem sendo desenvolvidos. No caso dos homens, existe uma porcentagem menor, mas mesmo assim vários recorrem a malhação exagerada e uso de anabolizantes para alcançar a perfeição que almejam. A nossa sociedade está envolta a um imediatismo e a um consumismo nunca vistos antes que estão deixando as pessoas obcecadas, cegas e claro : cada vez mais seduzidas...
Outra evidência primordial é a anorexia, que consiste em um distúrbio alimentar (sendo assim patológico), em que a pessoa não vê necessidade em comer. O termo Anorexia pode não ser de todo correto, tendo em vista que não há uma verdadeira perda do apetite mas sim, uma recusa mesmo de se alimentar.As mulheres jovens em geral entre 14 e 25 anos, ficam nesta recusa de alimento devido à obsessão pela magreza e o medo mórbido de ganhar peso. Na maioria das vezes acabam morrendo por falta de alimento no organismo.
Já no caso dos homens, o grande aumento da 'vigorexia' é alarmante; não tão grande quanto os casos de distúrbios femininos, mas ainda sim eles também querem atingir o corpo ideal, e sempre se acham sempre magros e fracos querem músculos ser fortes e viver em uma estética 'apolínea' que em muito nos Lembra o filme de Leni Riffenstal “Arquitetura da Destruição”. E Como Dra. Joana Novaes completa:
“Temos aqui, os ideais estéticos nazistas que apregoavam a perfeição dos deuses e a eliminação de tudo aquilo que era considerado 'imperfeito'. Sabemos aonde isto nos levou” .
A força com que este culto ao corpo vem atuando é tão intensa, que a magreza, por exemplo, já se tornou algo primordial na vida da maioria das pessoas, passando por cima muitas vezes da própria saúde. Muitas jovens ao se considerar gordas por estarem um pouco acima do peso são capazes de achar médicos irresponsáveis para realizarem cirurgias de redução no estômago, apenas para ser esteticamente agradáveis ao padrão que nos é imposto.
Cheguei inclusive a conhecer uma jovem de 19 anos (modelo) que vestia manequim 34 e se achava gorda, foi capaz de fazer uma lipo nos quadris, por estar sofrendo com o que ela chamava de “gordurinhas”. Outra de 17 anos que fez plásticas nos seios, por que os achava caídos e flácidos: Onde nós estamos? Por que buscar tanta artificialidade e se deixar dominar por este consumo obsessivo do corpo?
Lipovetsky, em seu livro “ Temos Hipermodernos” diz que após a transição cultural que foi proporcionada pela pós-modernidade, entrou em cena o que ele denomina hipermodernidade, que tem como característica o signo do excesso, a cultura da urgência , do imediatismo e ainda o declínio das tradicionais estruturas de sentido, no qual, os grandes sistemas de representação de mundo são tomados como objeto de consumo, sendo trocados de modo tão efêmero como uma roupa ou um carro, num processo de permanente reciclagem do passado. E este excesso vem impedindo as pessoas de achar um meio termo para sua saúde e sua estética. O que será que vale mais! Quando Lipovetsky coloca que:
"Lutar para melhorar a aparência é ser dono do próprio corpo" (LIPOVETSKY)
Creio que ele não quis dizer que a obsessão pelo físico ideal é o melhor remédio. Ao Ler Lipovetsky concordo com muito do que ele diz, mas também discordo quando ele coloca que a imposição da magreza, ao mesmo tempo em que atinge indiscriminadamente todas as pessoas, é também uma forma que o indivíduo tem de tomar posse do próprio corpo. Eu não creio que ser magro é ser dono do próprio corpo, creio que ter a própria identidade em uma sociedade que impõe, é ser dono do próprio corpo e da própria mente. E acima de tudo , colocar a saúde em primeiro lugar, como a maioria das pessoas que querem ser magras não fazem.
A obsessão pela moda pode ser considerada o maior exemplo de superficialidade que as pessoas alcançaram nestes “tempos hipermodernos”. Para estas, o que não está na moda é aquilo que já passou que não é mais atual e daí precisa ser reformulado para seduzir e ser então consumido pelos narcisos. Narcisos estes que são esquizofrênicos, já que vivem e cultuam esta sociedade hipermoderna que também é esquizofrênica, pura contradição . Afinal, onde já se viu, querer ser eficiente, imediato, organizado, eficaz, responsável e ao mesmo tempo demonstrar comportamentos disfuncionais, mostrados em formas de compulsões, patologias, adições, sintomas psicossomáticos, quadros depressivos, produzidos paradoxalmente particularmente no universo funcional da técnica?
E Nesta sociedade hipermoderna, a teoria de Focault da sociedade disciplinar da modernidade foi substituída pela teoria de Deleuze e sua sociedade do controle. Ou melhor dizendo, hoje, estamos em um momento de transição de um modelo para o outro. Estamos saindo de uma forma de encarceramento completo para uma espécie de controle aberto e contínuo. A sociedade do controle dá outra dimensão e ainda ampliam os pilares da sociedade disciplinar.
Para situarmos melhor a sociedade do controle, podemos tomar como base quando Deleuze diz que nesta sociedade do controle :
"o essencial não seria mais a assinatura nem um número, mas uma cifra: a cifra é uma senha (...) A linguagem digital do controle é feita de cifras, que marcam o acesso ou a recusa a uma informação" (Deleuze, 1990)
Na contemporaneidade não há mais disciplina ; não existem crenças oficiais ou normas sólidas para nos apoiarmos, esta nova sociedade é fluida e não tem raízes firmes, daí a juventude que nela vive acaba sendo produto desta instabilidade e talvez seja por isso que estes narcisinhos acabam ficando perdidos sem ter estas “ bases sólidas” para se apoiar, e acham o culto ao corpo como forma de salvação e buscam então este efêmero que talvez seja a única saída para que eles possam se sentir inseridos, menos abandonados e então parte desta sociedade “Líquida”.
..Quando nos informam, nos dizem o que julgam que devemos crer.(...) Ou nem mesmo crer, mas fazer como se acreditássemos. Não nos pedem para crer, mas para nos comportar como se crêssemos. Isso é informação, isso é comunicação; à parte essas palavras de ordem e sua transmissão, não existe comunicação. O que equivale a dizer que a informação é exatamente o sistema do controle (Deleuze)
Tendo como base Deleuze, pode –se dizer que não existe Nenhuma forma de poder mais sofisticada do que aquela que regula os elementos imateriais de uma sociedade: informação, conhecimento, comunicação. O controle e o sistema de informação estão envolvidos de tal forma que a transmissão de informações, que Deleuze chama de “palavras de ordem”, corresponde ao próprio sistema de controle. E para piorar, tudo é controlado na mais improvável transparência ou melhor dizendo invisibilidade.
Não existem imposições, mas por trás das informações existe a tal da sedução, quando um meio de comunicação se manifesta para assim passar uma informação, ele nos faz crer ou pelo menos fingir crer que aquela informação é absolutamente verdadeira e esta é exatamente o sistema do controle, que consegue de certa forma “manipular” os indivíduos através da sedução, da publicidade (como já citado acima) e é claro, do marketing :
“O marketing é agora o instrumento de controle social, e forma a raça
impudente de nossos senhores” (Deleuze)
Para completar este raciocínio, ainda venho com uma citação que encontrei em um site que descreve muito bem esta sociedade do culto ao corpo :
“ A sociedade contemporânea é descrita por Debord (1994), como a sociedade do espectáculo, que substitui o lema “Penso logo existo”, por um outro ditado: “sou visto, logo existo” (Quinet, 2002). ”( ...) Esta sociedade escópica impõe uma existência vinculada à visibilidade, e consequentemente à celebridade, mas por outro lado, amplia cada vez mais a vigilância e o controle sobre cada indivíduo.
E este culto ao corpo, o carro chefe da nossa sociedade atual, não é mais que justamente, algo emanado pelos nossos meios de comunicação : por quem detém o poder de determinar qual será o padrão vigente na nossa sociedade! Quem tem o poder de fazer campanhas publicitárias, seduzir consumidores, estabelecer a lógica da moda como principal, transformar o corpo em um produto caro que merece investimentos.
Este culto ao corpo que vem crescendo, além de ser produto da mídia, é também produto da tecnologia, do mundo de imagens, ou melhor dizendo do mundo “noológico” (Santaela) em que vivemos; é como se seres biológicos tivessem entrado em extinção e uma boa teoria para pontuar este culto ao corpo seria que esta juventude, busca a artificialidade, afinal o convívio com seres biológicos (naturais/pessoas) já não acontece com tanta freqüência quanto antes.
Engraçado, como a maioria dos jovens se sente bem, apenas quando estão na penumbra do seu quarto manuseando uma prótese chamada mouse e navegando no mundo “artificial” e tecnológico da internet, ou então assistindo programas alienantes e também muito artificiais e irreais na televisão. Talvez estes narcisos que buscam a perfeição de acordo com este padrão imposto da magreza, da plástica, da musculação, estejam apenas buscando ser artificiais como os seres “noológicos” que os cercam..
Na tentativa de se tornarem tão perfeitos quanto , por exemplo, a Gisele Bündchen em uma foto que viram na revista, e que claramente foi manuseada e transformada no photoshop, acabam caindo em disfunções quando percebem que caem em um vazio total, e o pior , quando não conseguem alcançar a meta almejada, começam a ficar obsessivos e muitas vezes caem no vício de fazer plásticas em vão ou em disfunções psicológicas sérias.
Por outro lado, esta crescente padronização física que se submetem os jovens os fazem cair em um anonimato dentro desta sociedade tão numérica, individualista e indiferente em que vivemos, afinal, herdamos tudo isso da sociedade moderna. Então alguns tentam escapar disso se tornando excêntricos e se unindo a organizações tribais, manifestando assim uma identidade grupal utilizando-se de tatuagens, piercing, dentre outros adereços, dialogando consigo mesmo e buscando a ordem no seu interior. Afinal, do lado de fora só encontram caos e nesta sociedade do caos, a única coisa que impera mesmo é a contradição .
As Tribos que vem crescendo muito nos dias de hoje, podem ser caracterizadas como um fenômeno juvenil dos grandes centros e que, dia após dia, ampliam sua atuação e aumentam seus simpatizantes. Punks, Skinheads, Rappers, White Powers, Clubbers, Grunges, Góticos, Drag Queens, são muitos os jovens que para fugir deste abandono e deste anonimato proposto pela contemporaneidade adotam um comportamento exótico e grupal.
A morte da identidade pessoal promovida por nossa sociedade atual e seus aparatos, promove em muitos jovens depressão, tristeza e descontentamento com a vida, e nestas tribos muitas vezes, eles encontram a capacidade de resistir e contestar esta sociedade.
Creio que o sentimento de vazio e de descontentamento vivido por vários jovens hoje podem levá-lo a uma resistência diante deste mundo opressor, massificador e despersonalizador e essa é puramente a contemporaneidade..
Esse período não é mais como a modernidade e suas cartilhas, não nos é mais dado um sentido único, uma missão, uma tarefa; o complicado na contemporaneidade é justamente por que temos que descobrir nossas tarefas, nosso sentido, sendo que há opções infindáveis e várias morais diferentes, esperando apenas que eu escolha a que eu gostaria. Nesta hipermodernidade existe um hipermercado de sentidos me seduzindo, me chamando, me fazendo escolher, e a questão é, já que se tem muitas escolhas, os jovens acabam por ficarem perdidos nestas prateleiras de valores.
E Enquanto em alguns se manifesta esse tipo de atitude, outros preferem estar inseridos no “padrão global”, sendo absolutamente seduzidos pelo mundo estetizado em que vivemos, escolhendo e aceitando o consumo e o culto ao corpo como única opção , considerando estes como única “cartilha” a ser seguida, já que não se tem mais uma moral oficial, uma base sólida para apoiar-se , as pessoas acabam se agarrando à esta saída : O consumo e o culto ao corpo como compulsão e vício .
No caso das mulheres, por exemplo: a plástica, a magreza exagerada, o cabelo com a tal chapinha, o silicone, a calça jeans justa e baixa, dentre outros artefatos e artifícios se tornam investimentos obrigatórios para que possam ser aceitas na sociedade e tidas como belas.
E Sim, é decepcionante, mas é isso que a contemporaneidade está provocando com seus pilares voltados para estética, trabalho, consumo e relativização dos valores. Logo, não importa como, mas a “verdade” é que no mundo hipermoderno, você tem que trabalhar para conseguir dinheiro, e com este se gratificar pelos esforços que foi submetido, consumindo cada vez mais e se tornando um narciso que se deixa seduzir pela febre do culto ao corpo.
Mas até quando nossas preocupações ficarão voltadas para isso? Com os problemas que o mundo vem sendo submetido como o Aquecimento Global, em determinado momento, creio que este culto ao corpo vai ser obrigado a ficar em segundo plano, já que em um futuro próximo, teremos problemas mais essenciais para resolvermos: como a falta de água, o calor escaldante, dentre outras dificuldades(pormenores) que este aquecimento trará.
Talvez tenhamos que nos voltar para questões mais fundamentais à própria sobrevivência, sendo assim , creio que este culto ao corpo por fim acabará naturalmente esquecido.
3.Conclusão :
Não é preciso de muito esforço para considerar que este culto ao corpo da juventude de hoje é exagerado e prejudicial na medida em que os adolescentes, na busca cega pelo corpo perfeito, se submetem cada vez mais cedo aos implantes de silicone, lipoaspiração e dietas milagrosas, e o pior é que na maioria das vezes tudo não passa de um capricho desnecessário. As pesquisas feitas mostram que o resultado de todo esse processo de valorização deste corpo artificial e às vezes impossível é o aparecimento de jovens com sérios problemas patológicos e psicológicos como a bulimia, anorexia e vigorexia (no caso dos homens) são cada vez mais comuns entre os adolescentes.
O “culto ao corpo” passou a ser o culto da superficialidade. Na verdade, vive-se inclusive uma ditadura da beleza em que o corpo é alvo de sacrifícios, e tudo é permitido para que se alcance o objetivo almejado: um corpo artificial e perfeito de acordo com os padrões vigentes. E isso é uma infelicidade, por que só gera mais preconceitos e intolerâncias com as diferenças.
O bem estar físico constitui apenas uma parte do que deveria ser um projeto mais amplo da busca pela saúde integral, afinal magreza ou beleza não são sinais de saúde. O que adianta viver nesta busca vazia e efêmera e encontrar apenas ilusões e nada mais? Creio que outras áreas como a social, psicológica e até espiritual também devem contempladas, afinal para se ter uma saúde plena, tudo deve estar em equilíbrio;
Então, já que vivemos nesta “modernidade líquida”, fluída, cheia de opções, nos resta escolher algo que escape desta doença, deste vício, desta compulsão de ter um corpo como objeto de consumo e sedução.
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Reflexão pessoal :
Pode ser ousadia, mas em um futuro muito próximo, talvez tenhamos que nos preocupar com “coisas” mais importantes, afinal o mundo vem sendo submetido a catástrofes naturais (aquecimento Global) e a problemas sociais e economicos que de modo geral, que podem vir a ocupar o lugar de importância que é dado a este culto à estética. Exagero ou não, refletir não custa, já que podemos chegar a um tempo em que o mais importante poderá ser a mera preocupação com a sobrevivência.